E quando a gravidez não é estado de magia e de graça? Parte III

by - abril 06, 2019


Bem, como não há 2 sem 3, mesmo depois das boas notícias da amniocentese as preocupações continuavam a chegar. Às 24 semanas comecei com as chamadas contrações de treino mas muito fortes. Fazia inúmeras ecografias e tudo parecia bem apesar deste contratempo. Até chegar à ultima ecografia e o médico alertar para um colo do útero já muito curto.

Às 30 semanas, um sábado, dou entrada no Hospital cheia de contrações e com ameaça de parto prematuro. O soro, a medicação, nada funcionava... Seguiu-se o período de internamento, sem sequer me poder levantar para ir à casa de banho ou tomar banho. Chorei todos os dias cada vez que ficava sozinha. Nem o chá do bebé, nem barriga de gesso, nem recordações que todas imaginamos ter. 

A minha parceira de quarto, grávida de 35 semanas, internada à 1 mês de gémeos também, foi a minha companhia. Companheira, amiga, confidente. Sabemos como é bom ter alguém com quem partilhar os nossos receios. Estive 1 semana a fazer tudo para que não nascessem. Injecções para a maturação pulmonar e muito repouso. Nada parecia resultar, pois mesmo com repouso absoluto o colo do útero ficou ainda mais curto. O stress não ajudava e fui para casa. Voltei a casa cheia de mimos e amor. Tinha saudades da minha cama, da minha casa, da minha comida, da minha família, do meu cão...

O tempo de internamento serviu para pensar em muita coisa e de alguma forma organizar tudo mentalmente. Aquele silêncio, aquela calma e de alguma forma o tempo que estive sozinha serviu para os conhecer. Sabia de cor de quem eram os pés naquela costela; quem estava com soluços sempre que eu bebia água ou comia; quem se mexia mais e quem estava mais calmo. Na hora de fazer o ctg fugiam sempre, mais ou menos como eu tinha vontade. Serei a única que detestou essa parte?

Até que, na segunda-feira, dia 9 de julho, à noite, algo não estava bem. Tinha dores estranhas e por isso fui deitar-me cedo. O relógio marcava 1h30 da manhã quando acordei em pânico e gritei: as águas rebentaram. Neste momento, o cérebro parece adormecer. Mas não é só o nosso!!! Enquanto preparava tudo e andava de um lado para o outro, fui dar com o Rui de esfregona na mão a limpar o chão. Prioridades são prioridades (ahahaha). Tomei banho, preparei a mala e chegamos ao Hospital de São Francisco perto das 3h da manhã. A primeira médica não arriscava parto normal e disse-me que seria uma cesariana. Felizmente o turno mudou e chegou um médico que me tranquilizou e me disse logo que iria ser um parto natural. As contracções chegavam com mais ritmo, a dilatação aconteceu num curto espaço de tempo e implorei pela epidural. Não fosse eu uma intolerante à dor. Os dedos do rui estavam negros de tanta força que fazia. Estávamos nervosos, sabíamos que seria um parto prematuro e que se avizinhava um período difícil, mas mesmo com essas preocupações não deixava de ser O Momento. Entrei no bloco por volta das 7h30, com uma sala cheia de gente (equipas a dobrar) que uniam uma força positiva enorme. Ri muito, e parecia chegar o momento. Foi então que às 7h43 conhecemos a nossa Clarinha e às 7h56 conhecemos o nosso Xavier. Ali eu soube: o meu coração agora bate cá fora. Bate onde eles estiverem. 


E foi aqui que começou a nossa maior aventura...

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