O meu diário: Clara e Xavier - Dia 1

by - abril 12, 2019


Esta é a nossa história. A neonatologia foi o nosso cenário durante 27 dias e a pediatria 2 dias. Podia ter sido melhor? Podia, mas foi o que tivemos. Se foi mau? Cansativo? Sim. Foram dias de aperto, de sentirmos que o nosso coração fica lá entregue... Mas nada podíamos fazer. E se por um lado foi cansativo, por outro foram dias de conquistar vitórias e objectivos. Com eles aprendemos tanta coisa. Aprendemos a esperar, aprendemos a valorizar cada segundo que passa no relógio, aprendemos que se dermos um passo atrás quase sempre damos 3 para a frente, aprendemos o que é o amor mais puro e verdadeiro. Aprendemos a escutar, aprendemos a compreender olhares, aprendemos o significado de tanta coisa que não é falada. Quis registar o nosso dia-a-dia, e foi quando a equipa me entregou estes dois diários. Escrevia-o todos os dias, sentada no cadeirão azul, debaixo de apitos ensurdecedores. Quando o escrevia, mergulhava numa bolha só minha e por momentos deixava de ouvir tudo o que se passava. Foram estes apitos que me perseguiram e que ainda hoje me perseguem. Abro-vos o meu coração, abro-vos o diário que agora é nosso. 



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Xavier

Hoje, 10 de julho, a minha querida irmã achou que estava na altura de irmos conhecer o mundo lá fora. Secalhar, porque queria aproveitar o Verão (o que ela não sabe é que este ano o Verão ainda não chegou), ou então queria assistir às notícias dos meninos da gruta e à confirmação do Ronaldo em Itália. 
Então lá fomos nós, de casa ao hospital São Francisco de Xavier (em tempo recorde). A mãe e o pai estavam nervosos, e eu para os tranquilizar ia-me mexendo para que soubessem que estava tudo bem. 
As salas encheram-se de gente e o pai também não arredou pé. A Clara, como se quis despachar, lá foi primeiro. Eu, passados 13 minutos, também me despachei. Pelo que me dizem, a mãe portou-se muito bem, mas nós.... portamo-nos mega bem! Fomos recebidos por uma equipa fantástica, e a seguir fomos conhecer outro Mundo: uma casota azul muito quentinha e confortável que os crescidos chamam de incubadora. Tratam de nós através dela, e por isso, ainda não conhecemos o colinho dos pais. Conhecemos as enfermeiras Lígia e Bárbara que nos dão muitos miminhos. Os papás estiveram a aprender para que serve cada fio que nos serve de cobertor. Ainda não retiram parecenças, mas a mamã ficou feliz de termos os 2 a cova no queixo. No meio de tanto fio conseguem perceber as minhas feições. No meio de tanto ruído conseguem ouvir o meu coração, ele bate forte com vontade de lutar e a cada batida diz que vos amo muito e que não vos vou deixar mal. 
Eu sou logo o primeiro quando entram na sala, o último do alfabeto, mas o primeiro da sala. A minha mana está longe mas deve conseguir ouvir-me porque sou um verdadeiro chorão. 


Clara

A história que o meu irmão Xavier conta é verdade. Quis ser despachada, mas porque quero muito ir para o braço dos papás! Sou a mais velha, também tenho voto na matéria. E para além disso, o Xavier passou 32 semanas + 3 dias a “esmigalhar-me” e eu fiquei sempre muito arrumadinha. 
Fui então a primeira a conhecer o mundo cá fora e tem o seu encanto. Sair e ver a mamã e o papá foi muito bom. Mas tal como o mano Xavier, tive de ir conhecer uma casa nova: a Neonatologia. Com o meu kilo e meio, sou a quarta incubadora a contar da incubadora do mano. Estou longe dele, mas não faz mal. Eu oiço-o e a nossa ligação supera tudo. Chamam-me Clarinha, mas estou um verdadeiro tomatinho! Está tudo a ser novo, ainda não bebo leitinho e a verdade é isto é meio confuso. Tudo apita, muitos fios... Acho que me vou portar bem, mas quero muita atenção. Choro quando não me ligam nenhuma. As enfermeiras tratam bem de mim. O melhor é ser amiga delas se não continuam a picar-me a fazer umas maldades. 
O que espero daqui? Que seja uma passagem rápida porque os meus papás dizem que em casa há muitos miminhos! 

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